O Papel de Ulisses na Guerra de Tróia

Embora autor do famoso juramento, Ulisses, por amor à esposa e ao filho, procurou, de todas as maneiras, fugir ao compromisso assumido.

Quando lhe faltaram argumentos, fingiu-se de louco. Mas Menelau dirigiu-se à Ítaca, onde encontrou Ulisses, que havia atrelado um burro e um boi a uma charrete e abria sulcos nos quais semeava sal. Outros dizem que tentava arar as areias do mar.  Menelau, todavia, não se deixou enganar com o embuste e colocou o pequenino Telêmaco diante das rodas do arado. Ulisses deteve os animais a tempo de salvar o menino. Desmascarado, o herói dedicou-se inteiro à causa dos gregos, mas, no decurso da Guerra de Tróia, vingou-se cruel e covardemente dos heróis da Hélade.

Acompanhado de Miisco, que Laerte lhe dera como conselheiro, e com a missão de velar sobre o filho em Tróia, Ulisses se engajou na armada grega.

Acompanhou Menelau a Delfos para consultar o oráculo e, logo depois, em companhia de Menelau, participou da primeira comissão a Tróia, com o fito de resolver pacificamente o incidente do rapto de Helena. Reclamaram Helena e os tesouros carregados pelo casal. Páris se recusou a devolver tanto Helena, quanto os tesouros, e ainda tentou convencer os troianos a matarem o rei de Esparta, que foi salvo por Antenor, companheiro e prudente conselheiro do velho Príamo.

Com a recusa de Páris e sua traição a Menelau, a guerra se tornou inevitável.

Em seguida, foi em busca de Aquiles, que sua mãe, Tétis, havia escondido, mas cuja presença e participação, eram indispensáveis para a tomada de Ílion. Tétis sabedora do triste destino que aguardava seu filho, levou-o secretamente para a corte de Licomedes, na ilha de Ciros, onde o herói passou a viver como linda donzela ruiva, no meio das filhas do rei, como nome falso de Pirra, já que o herói tinha os cabelos louro-avermelhados. Disfarçado em mercador, o astuto Ulisses conseguiu penetrar no gineceu do palácio de Licomedes. As moças logo se interessaram pelos tecidos e adornos que esse mercador vendia, mas Pirra, a ruiva, tendo voltado sua atenção exclusivamente para as armas, pôde ser identificado, com facilidade, e conduzido para a armada grega.  
Aquiles/Pirra na corte de Licomedes

Aquiles/Pirra na corte de Licomedes

Ainda como embaixador, o rei de Ítaca foi enviado à corte de Chipre, onde reinava Cíniras, que, após o incesto involuntário com sua filha Mirra, fora exilado de Biblos e se tornara o primeiro rei da grande ilha grega do mar Egeu, onde introduziu o culto de Afrodite.   

Cíniras prometeu enviar cinquenta naus equipadas contra os troianos, mas mandou apenas uma.

O sacrifício de Ifigênia

O sacrifício de Ifigênia

Reunidos, finalmente, a armada velejou rumo a Tróada. O mar, no entanto, permanecia inacessível aos audazes navegantes, por causa de prolongada calmaria. Consultado, o adivinho Calcas explicou que o fenômeno se devia à cólera de Artemis, porque Agamêmnon, matando uma corça, afirmara que nem a deusa o faria melhor que ele. Para suspender a calmaria, Artemis exigia o sacrifício da filha primogênita de Agamemnon, Ifigênia. 

Foi nesse triste episódio, que Ulisses continuou a mostrar sua inigualável astúcia e capacidade de liderança.

Agamêmnon, a conselho de seu irmão Menelau e de Ulisses, enviara à esposa Clitemnestra, em Micenas, uma mensagem mentirosa, solicitando-lhe que conduzisse Ifigênia a Áulis, a fim de casá-la com o herói Aquiles. Mas, logo depois, horrorizado com a idéia de sacrificar a própria filha, tentou mandar uma segunda missiva, cancelando a primeira. Menelau, todavia, interceptou-a e Clitemnestra, acompanhada por Ifigênia e o pequenino Orestes, chegou ao acampamento aqueu.

Clitemnestra vinga-se de Agamêmnon por tentar sacrificar sua filha Ifigênia

Clitemnestra vinga-se de Agamêmnon por tentar sacrificar sua filha Ifigênia

O rei de Ítaca, percebendo as vacilações de Agamêmnon e os escrúpulos de Menelau, no tocante ao cumprimento do oráculo, excitou os chefes e a soldadesca aquéia, que se viram compelidos a sacrificar a jovem inocente. Não fora a pronta intervenção de Artemis, substituindo Ifigênia por uma corça, Agamêmnon, Menelau e Ulisses teriam agravado ainda mais a situação.

Ulisses levou a Tróia doze navios lotados com heróis, soldados e marujos provenientes das ilhas de Cefalênia, os magnânimos cefalênios; de Ítaca, de Nérito, de Egílipe, de Zacinto e de Same.

Na rota para Tróia, aceitou o desafio do rei de Lesbos, Filomelides, e o matou na luta. Esse episódio, recordado pela Odisséia de Homero, foi reinterpretado, posteriormente, como um verdadeiro assassinato cometido por Ulisses e seu parceiro inseparável em tais casos, o violento Diomedes.

Em Lemnos, durante um banquete dos chefes aqueus, Ulisses e Aquiles discutiram asperamente: o primeiro elogiava a prudência e o segundo exaltava a bravura. Agamêmnon, a quem Apolo havia predito que os aqueus se apossariam de Tróia, quando reinasse a discórdia entre os chefes helenos, viu no episódio o presságio de uma rápida vitória. Os mitógrafos posteriores deturparam o fato e atribuíram a querela a Agamêmnon e Aquiles, primeiro sintoma da grave contenda entre estes dois heróis, o que se constituirá no assunto da Ilíada.

Por todo esse tempo, o heróismo e a astúcia de Ulisses brilharam intensamente. Durante todo o certo a Ìlion o rei de Ítaca mostrou extraordinário bom-senso, destemor, audácia, inteligência prática e criatividade.  Convocavam-no para toda e qualquer missão que demandasse, além de coragem, sagacidade, prudência e habilidade oratória.

Participou, acompanhado de Ajax, da embaixada junto a Aquiles, para que este voltasse ao combate, o que não aconteceu, apesar do belo e convincente discurso do rei da Ítaca.

Como a guerra se prolongasse além do esperado, Ulisses, em companhia de Menelau, dirigiu-se à corte de Ânio, rei e sacerdote de Delos. Esse Ânio, filho de Apolo e de Reia, era pai de três filhas: Elaís, Espermo e Eno, cujos nomes lembram, respectivamente, óleo, trigo e vinho. Como houvessem recebido de Dionísio, o poder de fazer surgir do solo esses três produtos indispensáveis, os chefes aqueus, dado o prolongamento da guerra, mandaram buscá-las. De bom grado as filhas do rei de Delos acompanharam os embaixadores gregos, mas, já cansadas de uma tarefa incessante, fugiram. Perseguidas pelos Helenos, pediram proteção a Dionisio, que as transformou em pombas. Por isso, na ilha de Delos, era proibido matar pombas.

Audacioso e destemido, o herói arriscou muitas vezes a vida em defesa da honra ofendida da família grega.

Dólon aprisionado por Ulisses e Diomedes

Dólon aprisionado por Ulisses e Diomedes

Dólon, espião troiano, é aprisionado por Ulisses e Diomedes. Após revelar tudo quanto os dois desejavam saber, Diomedes, impiedosamente, apesar das súplicas de Dólon, cortou-lhe a cabeça. Guiados pelas informações do troiano, penetram no acampamento inimgo e surpreenderam dormindo o herói trácio Reso, que viera em auxílio dos Troianos no décimo ano da guerra. Mataram-no e levaram-lhe os brancos corcéis, rápidos como o vento. Conta-se que a audaciosa expedição dos dois bravos aqueus contra Reso fora inspirada pelas deusas Hera e Atena, pois um oráculo predissera que, se Reso e seus cavalos bebessem da água do rio Escamandro, o herói trácio seria invencível.

Desejando penetrar como espião em Ílion, Ulisses, para não ser reconhecido, fez-se chicotear até o sangue por Toas. Ensanguentado e coberto de andrajos, apresentou-se em Tróia. Conseguiu furtivamente chegar até Helena, que, após a morte de Páris, estava casada com Deífobo e a teria convencido a trair os Troianos. Relata-se igualmente que Helena teria denunciado a Hécuba, rainha de Tróia, a presença de Ulisses, mas este, com suas lágrimas, suas manhas e palavras artificiosas, teria convencido a esposa de Príamo a prometer que guardaria segredo a seu respeito. Desse modo foi-lhe possível retirar-se ileso, matanto antes as sentinelas que vigiavam a entrada da fortaleza.

Quando da morte de Aquiles e da ourtorga de suas armas ao mais valente dos aqueus, Ajax, o mais forte e destemido dos gregos, depois do filho de Tétis, disputou-as com Ulisses nos jogos. Face ao embaraço de Agamêmnon, qua não sabia a qual dos dois premiar, Nestor, certamente por instigação de Ulisses, aconselhou que fossem interrogados os prisioneiros troianos; e estes, por unanimidade, afirmaram que o rei de Ítaca fora o que mais danos causara a Tróia. Inconformado com a derrota, Ajax, num acesso de loucura, massacrou um pacífico rebanho de carneiros, pois acreditava estar matando os gregos, que lhe negaram as armas. Voltando a si, compreendeu ter praticado atos de demência e, envergonhado, mergulhou a própria espada na garganta.

Após a queda de Ílion, Ajax pediu a morte de Helena como pena de seu adultério. Tal proposta provocou a ira dos átridas. Ulisses salvou a princesa e conseguiu que a mesma fosse devolvida a Menelau. Logo após este acontecimento, o destemido Ajax solicitou, como parte dos despojos, que lhe fosse entregue o Paládio, a pequena estátua de Atena, dotada de proprieadades mágicas. Por instigação, mais uma vez, de Ulisses, os atridas não lhe atenderam o pedido.

Quando Atena, para mostrar a extensão da desgraça de Ajax e o poder dos deuses, pergunta a Ulisses se, porventura, conhece um herói mais valente, a resposta do filho de Sísifo não se faz esperar:

– Não, não conheço nenhum, embora seja meu inimigo, lamento seu infortúnio. Esmaga-o terrível fatalidade. Em seu destino entrevejo meu próprio destino. Todos quantos vivemos, nada mais somos que farrapos de ilusão e sombras vãs.

O cavalo de Tróia - Tiepolo

O cavalo de Tróia - Tiepolo

O maior feito de Ulisses na Guerra de Tróia foi, sem dúvida, o genial estratagema do Cavalo de Tróia

Ulisses foi o primeiro a sair do cavalo, a fim de acompanhar Menelau, que se dirigiu à casa, para se apossar de Helena.

Lá, o rei de Ítaca impediu o átrida de assassinar ali mesmo sua linda esposa.

Conforme outra variante, Ulisses salvou-a da morte certa: escondeu-a e esperou que a cólera dos helenos se mitigasse, evitando que a rainha de Esparta fosse lapidada, como desejavam alguns chefes e a soldadesca.

Andrômaca vela o corpo de Heitor

Andrômaca vela o corpo de Heitor

Foi um dos responsáveis diretos pela morte do filho de Heitor e Andrômaca, o pequenino Astíanax, que, no saque de Tróia, foi lançado de uma torre.

Por instigação de Ulisses, a filha caçula de Príamo e Hécuba, Políxena, foi sacrificada sobre o túmulo de Aquiles por seu filho Neoptólemo. Tal sacrifício, complementar ao de Ifigênia, teria por finalidade proporcionar ventos favoráveis para o retorno das naus aquéias a seus respectivos reinos.

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Os pomos do Jardim das Hespérides

as 3 Hespérides

as 3 Hespérides

Quando do casamento sagrado de Zeus e Hera, esta recebeu de Gaia, como presente de núpcias, algumas maçãs de ouro.  A esposa de Zeus as achou tão belas, que as fez plantar em seu jardim.

Como as filhas de Atlas, que ali perto sustentava em seus ombros a abóbada celeste, costumavam pilhar o jardim, a deusa colocou os pomos e a árvore em que estavam engastados, sob severa vigilância.

Um dragão imortal, de cem cabeças, filho de Tifão e Équidna, e as três ninfas do Poente, as Hespérides: Egle, Eritia e Hesperaretusa, isto é, a brilhante, a vermelha e a do poente, exatamente o que acontece com as três colorações do céu, quando o sol vai desaparecendo no Ocidente, guardavam, dia e noite, a árvore e seus pomos de ouro.

A derradeira tarefa do herói incansável consistia, exatamente, em trazê-los a Euristeu.

Atravessando a Macedônia, Hércules foi desafiado por Cicno, filho de Ares, que violento e sanguinário, assaltava os peregrinos que se dirigiam ao Oráculo de Delfos. Após assassiná-los, oferecia-lhes os despojos a seu pai. Em rápido combate, o herói o matou, mas teve que defrontar-se com o próprio deus, que pretendia vigar o filho. Atena desviou-lhe o dardo mortal, e o herói, então, o feriu na coxa, obrigando Ares a fugir para o Olimpo.

Depois encontrou as ninfas dos rios, filhas de Zeus e Têmis, que viviam numa gruta. Interrogadas por Héracles, elas lhe revelaram que somente Nereu era capaz de informar com precisão como chegar ao Jardim das Hespérides. Nereu, para não indicar o itinerário, transformou-se de todas as maneiras, mas o filho de Zeus o segurou com tanta força, que o deus das metamorfoses acabou por revelar a localização.

Hércules e Anteu

Hércules e Anteu

AnteuDas ondas do mar, residência de Nereu, o herói chegou à Libia, onde lutou com o gigante Anteu, que de uma força prodigiosa, obrigava a todos os que passavam pelo deserto, a lutarem com ele e, invariavelmente, os vencia e matava. Hércules, percebendo que seu competidor, quando estava prestes a ser vencido, apoiava firmemente os pés na Terra, sua mãe, Gaia, e dela recebia energias redobradas, deteve-o no ar e o sufocou. Tomou por esposa, em seguida, a mulher da vítima, Ifínoe, e deu-lhe um filho.

Para vingar seu amigo Anteu, os pigmeus, que habitavam os confins da Líbia e não tinham mais que um palmo de altura, tentaram matar Hércules, enquanto este dormia. O herói, tendo acordado, pôs-se a rir. Pegou os inimigos com uma só mão e os levou para Euristeu.

Atravessando o Egito, pelas más colheitas consecutivas, um adivinho de Chipre, Frásio, aconselhou o rei a sacrificar anualmente um estrangeiro a Zeus, para apaziguar-lhe a cólera e fazer que retornasse a prosperidade ao país. A primeira vítima foi exatamente Frásio. Hércules, logo que lá chegou, o rei o prendeu, enfaixou-o, o coroou de flores (como se fazia com as vítimas) e o levou para o altar dos sacrifícios. O herói, todavia, desfez os laços, matou o rei, e a todos os seus assistentes e sacerdotes.

Do Egito passou à Ásia e na travessia da Arábia, viu-se forçado a lutar com Emátion, que quis barrar-lhe o caminho que levava ao Jardim das Hespérides, porque não desejava que Hércules colhesse os Pomos de Ouro. Após matá-lo, o herói entregou o reino a Mêmnon e atravessou, em seguida, a Líbia, chegando à margem oposta, junto ao Cáucaso. Escalando-o, libertou Prometeu. Como sinal de gratidão, Prometeu aconselhou-o a não colher ele próprio as maçãs, mas que o fizesse por intermédio de Atlas.

Jardim das Hespérides - decoração de cerâmica

Jardim das Hespérides - decoração de cerâmica

Atlas com o mundo nas costas

Atlas com o mundo nas costas

Continuando o roteiro, Hércules chegou ao extremo ocidente e, de imediato, procurou Atlas, que segurava a abóbada celeste sobre os ombros. Hércules ofereceu-se para sustentar o Céu, enquanto aquele fosse buscar as maçãs.

O gigante concordou prazerosamente, mas, ao retornar, disse ao filho de Zeus que iria pessoalmente, levar os frutos preciosos a Euristeu. Hércules fingiu concordar e pediu-lhe apenas que o substituísse por um momento, para que pudesse colocar uma almofada sobre os ombros. Atlas nem sequer desconfiou. O herói então, tranquilamente, pegou as maçãs de ouro e retornou a Micenas.

De posse das maçãs, Euristeu ficou sem saber o que fazer com elas e as devolveu a Hércules.

Este as deu de presente a Atena, que repôs os pomos no Jardim das Hespérides, porque a lei divina proibia que esses frutos permanecessem em outro lugar.

Fechara-se o ciclo.  A Gnose (o conhecimento) estava adquirida.

Hércules no Jardim das Hespérides

Hércules no Jardim das Hespérides

Cérbero

cerberusO trabalho imposto por Euristeu, foi a ida ao mundo dos mortos, para de lá trazer Cérbero, cão de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes, guardião inexorável do reino de Hades. Impedia que lá penetrassem os vivos e, quando isto acontecia, não lhes permitia a saída, a não ser com ordem expressa de Hades.

Jamais Hércules teria podido realizar semelhante proeza, se não tivesse contado, por ordem de Zeus, com o auxílio de Hermes e Atena, quer dizer, com o concurso do quem não erra o caminho e da que ilumina as trevas.

Pessoalmente, o herói se preparou, fazendo-se iniciar nos Mistérios de Elêusis, que, entre outras coisas, ensinavam como se chegar com segurança à outra vida.

Segundo a tradição, o herói desceu pelo cabo Tênaro, na Lacônia, uma das entradas clássicas que dava acesso direto ao mundo dos mortos.

Vendo-o chegar ao Hades, os mortos fugiram espavoridos, permanecendo onde estavam, apenas, Medusa e Meléagro.

Contra a primeira o herói puxou a espada, mas Hermes o advertiu de que se tratava apenas de uma sombra vã. 

Contra o segundo, Hércules retesou o arco, mas o desventurado Meléagro contou-lhe de maneira tão comovente seus derradeiros momentos na terra, que o filho de Alcmena se emocionou até as lágrimas: poupou-lhe e ainda prometeu que, no retorno, lhe desposaria a irmã Dejanira.

Héracles não foi só o maior dos heróis, mas igualmente o mais humano de todos eles.  Mais uma vez o encontramos penalizado com a sorte alheia: vendo que no Hades os mortos eram apenas fantasmas, resolveu reanimá-los, mesmo que fosse por alguns instantes.  Para tanto, tendo que fazer libações sangrentas aos mortos, imaginou sacrificar algumas reses do rebanho de Hades.  Como o pastor Manetes quisesse impedi-lo até mesmo de se aproximar dos animais, o herói o apertou em seus braços possantes, quebrando-lhes várias costelas.

Finalmente Héracles chegou diante de Hades e, sem mais, pediu-lhe para levar Cérbero para Micenas.

Hades concordou, desde que o herói não usasse contra o monstro, de suas armas convencionais, mas o capturasse sem feri-lo, revestido apenas de sua couraça e da pele do Leão de Neméia.

hercules02heracles07Hércules agarrou-se com Cérbero e, quase sufocado, o guardião do reino dos mortos perdeu as forças e aquietou-se.

Subindo com sua presa, dirigiu-se para Micenas.  Vendo Cérbero, Euristeu refugiou-se em uma talha de bronze.  Não sabendo o que fazer com o monstro infernal, Hércules o levou de volta a Hades.

A respeito da descida de Hércules ao Hades, sabe-se que esta configura o supremo rito iniciático: a morte simbólica, a condição indispensável para uma subida, uma escalada definitiva na busca do autoconhecimento, da transformação do que resta ao homem velho no homem novo.

A viagem subterrânea, durante a qual os encontros com os monstros míticos configuram as provações de um processo iniciático, era, na realidade, um reconhecimento de si mesmo, uma rejeição dos resíduos psíquicos inibidores, consoante a inscrição gravada no pórtico do templo de Delfos: Conhece-te a ti mesmo.

HerculesCerberusBeham

Os bois de Gerião

Gerião

Gerião

Gerião, neto de Medusa, era um gigante monstruoso de três cabeças, que se localizavam num corpo tríplice, até os quadris, com seis braços e seis asas.  

Seu imenso rebanho de bois vermelhos era guardado pelo pastor Eurítion e pelo monstruoso cão Ortro, de duas cabeças.

Por ordem de Euristeu, Hércules deveria se apossar do rebanho do gigante e trazê-lo até Micenas.

A primeira dificuldade era atravessar o oceano. Para isso tomou por empréstimo uma taça gigantesca, em que Hélio, o sol, todos os dias, à noitinha, após mergulhar nas entranhas do oceano, regressava a seu palácio.

A cessão da taça por parte de Hélio não foi, entretanto, espontânea. O herói já caminhava, havia longo tempo, pelo extenso deserto da Líbia, e os raios do sol eram tão quentes e o calor tão violento, que Hércules ameaçou varar o astro com suas flechas. Hélio, aterrorizado, emprestou-lhe sua taça.

Chegando à ilha de Eritia, defrontou-se com o cão Ortro, que foi morto a golpes de clava.

Em seguida, foi a vez do pastor Eurítion.

Gerião, posto a par do acontecimento, entrou em luta com o herói, mas foi liquidado a flechadas.

Terminadas as justas, embarcou o rebanho na taça do sol, e reiniciou a longa e penosa viagem de volta.

Para lembrar sua passagem, ergueu duas colunas, separando a Líbia da Europa, as chamadas Colunas de Hércules, isto é, o Rochedo de Gibraltar e o de Celta.

Finalmente, o herói, com todas as cabeças de gado, encaminhou-se para a Grécia. 

Mas ao tocar a margem helênica do Mar Jônio, o rebanho inteiro foi atacado por moscardos, enviados por Hera. Enlouquecidos, os animais se dispersaram pelos contrafortes das montanhas da Trácia. O herói os perseguiu e cercou por todos os lados, mas só conseguiu reunir uma parte. O rio Estrímon, que, por todos os meios, procurara dificultar essa penosa caçada ao rebanho disperso, foi amaldiçoado e é por isso que seu leito está coberto de rochedos, tornando-o impraticável à navegação.

Ao termo dessa acidentada peregrinação iniciática, o infatigável filho de Alcmena entregou ao rei de Micenas o que sobrara do rebanho, que foi sacrificado a Hera.

Os cavalos de Diomedes

Diomedes filho de Ares e Pirene, o cruel rei da Trácia, possuía quatro éguas, Podargo, Lâmpon, Xanto e Dino, que vomitavam fumo e fogo e que eram alimentadas com as carnes dos estrangeiros que as tempestades lançavam às costas da Trácia.

Euristeu ordenou a Hércules de pôr termo a essa prática selvagem e trazer as éguas para Argos.

O herói foi obrigado a lutar com Diomedes, que, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas.

Após devorarem o rei, as éguas, estranhamente, se acalmaram e foram, sem dificuldade alguma, conduzidas a Micenas.

Euristeu as deixou em liberdade e as mesmas acabaram sendo devoradas pelas feras do monte Olimpo.

Do ponto de vista simbólico, sendo as éguas antropófagas, configuram a perversidade que devora o homem: a banalização, causa da morte da alma.

Diomedes, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas

Diomedes, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas

O touro de Minos

GeorgeF.Watts-MinotaurosMinos, rei de Creta, prometera sacrificar a Poseidom, tudo quanto de especial saísse do mar.

O deus fez surgir das espumas um touro maravilhoso.

Encantado com a beleza do animal, o rei mandou levá-lo para junto de seu rebanho e sacrificou a Poseidom um outro.

Irritado, o deus enfureceu o touro, que saiu pela ilha, fazendo terríveis devastações.

Foi este animal feroz, que lançava chamas pelas narinas, que Euristeu ordenou a Hércules de trazer vivo para Micenas.

Não podendo contar com o auxílio de Minos, que se recusou a ajudá-lo, o herói, segurando o monstro pelos chifres, conseguiu dominá-lo e, sobre o dorso do mesmo, regressou à Hélade.

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Euristeu o ofertou à deusa Hera, mas esta, nada querendo que proviesse de Hércules, o soltou.

O animal percorreu a Argólida, atravessou o Istmo de Corinto e ganhou a Ática, refugiando-se em Maratona, onde Teseu, mais tarde, o capturou e sacrificou a Apolo.

Os 12 trabalhos de Hércules

Após recuperar a sanidade, Hércules foi a Delfos consultar o oráculo de Apolo sobre o meio de se redimir desse crime e poder continuar com uma vida normal.

O oráculo ordenou-lhe que servisse, durante doze anos, o seu primo Euristeu, rei lendário de Micenas e de Tirinto.

Apresentando-se ao serviço, o rei, simpático a Juno (Hera), que não cessava de perseguir os filhos adulterinos de Júpiter (Zeus), impôs-lhe, com a oculta intenção de eliminá-lo, doze perigosíssimos trabalhos, das quais o herói saiu vitorioso.

Qualquer que seja a versão sobre a origem dos trabalhos de Hércules, sua razão básica está no conceito da necessidade de submeter-se ao rei Euristeu, que impõe as 12 tarefas, durante 12 anos, para ele alcançar a perfeição e a imortalidade. 

Os trabalhos de Hércules, no pensamento grego, é a constante reflexão segundo a qual todo herói deve purificar-se no sofrimento, até que sua alma se liberte de todas as paixões.  Simbolizam, fundamentalmente, o surgimento do mito heróico que todos os povos têm para indicar sua passagem do estado de barbárie para o de civilização. 

O herói afasta e remove os grandes obstáculos – apresentados como monstros – do caminho do progresso.

Durante a execução dos trabalhos, Hércules obteve todas as suas armas.  Ele mesmo confeccionou a maça com um tronco de oliveira, quando caçou o leão da Neméia.   A espada foi lhe dada por Hérmes.   Apolo deu-lhe o arco e as flechas.  Hefestos ofertou-lhe o peplo, túnica sem mangas, presa ao ombro por uma fivela. 

E os cavalos foram presente de Poseidon.  Quase todos os deuses contribuíram para auxiliar Hércules na realização de suas tarefas.