As aves do lago Estínfalo

Hércules e as aves do lago Estínfalo - peça do Louvre

Hércules e as aves do lago Estínfalo - peça do Louvre

Numa espessa e escura floresta, às margens do lago de Estinfalo, na Arcádia, viviam centenas de aves de porte gigantesco, cujas asas, cabeça e bico eram de ferro, que devoravam os frutos da terra, em toda aquela região.

Por seu enorme tamanho, interceptavam, no vôo, os raios do sol.

Eram antropófagas e liquidavam os passantes com suas penas aceradas, de que se serviam como de dardos mortíferos.

A dificuldade consistia em fazê-las sair de seus escuros abrigos na floresta.

Hefesto, a pedido de Atena, fabricou para o herói umas castanholas de bronze.  Com o barulho ensurdecedor desses instrumentos, as aves levantaram vôo e foram mortas com flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna.

Com suas flechas certeiras, símbolo da espiritualização, Hércules liquidou as aves. Como pântano, o lago reflete a estagnação. As aves que dele levantam vôo simbolizam o impulso de desejos múltiplos e perversos. Saídos do inconsciente, onde se haviam estagnado, põem-se a esvoaçar, e sua afetividade perversa acaba por ofuscar o espírito.

A vitória do filho de Alcmena é mais um triunfo sobre as trevas.

Hercules e as aves - Dürer

Hercules e as aves - Dürer

A Hidra de Lerna

hidra1A Hidra de Lerna era uma serpente, com corpo de cachorro, com nove cabeças (uma das quais era parcialmente de ouro e imortal), que se reproduziam mal eram cortadas e exalavam um vapor que eliminava quem se encontrasse nas redondezas: homens, colheitas e rebanhos.

Segundo a tradição, o monstro fora criado num pântano, por Hera para que acabasse com Hércules e este acabou com a hidra cortando-lhe as cabeças enquanto o seu sobrinho Iolau impedia a sua reprodução cauterizando as feridas do animal com tições em brasa, vindos do incêndio que ele havia provocado numa floresta próxima.

Hera enviou ajuda à serpente, um enorme caranguejo, mas Hércules pisou-o e o animal converteu-se na constelação de Caranguejo (ou Câncer).

heracles02A cabeça do meio era imortal, mas o filho de Alcmena a decepou assim mesmo: enterrou-a e colocou-lhe por cima de um enorme rochedo.  Por fim, o herói banhou as suas flechas com o sangue da serpente de maneira a que ficassem envenenadas.

A interpretação do mito é de que se trata de um rito aquático. A hidra com as cabeças, que renasciam, seria, na realidade, o pântano de Lerna, drenado pelo herói. As cabeças seriam as nascentes, que, enquanto não fossem estancadas, tornariam inútil qualquer drenagem.

A venenosa serpente aquática, dotada de muitas cabeças, é frequentemente comparada com os deltas dos rios, com seus inúmeros braços, cheias e baixas.

Vivendo nos pântano, a Hidra é mais especificamente caracterizada como símbolo dos vícios banais, nos quais se prolonga o corpo da perversão, a vaidade. Enquanto o monstro vive, enquanto a vaidade não é dominada, as cabeças, configuração dos vícios, renascem, mesmo que, por uma vitória passageira, se consiga cortar uma ou outra.

O Sangue da Hidra é uma veneno e nele o herói mergulhou suas flechas. Quando a peçonha se mistura às águas dos rios, os peixes não podem ser consumidos, o que confirma a interpretação simbólica: tudo quanto tem contato com os vícios, ou deles procede, se corrompe e corrompe.

Para vencer o monstro, Hércules usa a espada, arma de combate espiritual, conjugada ao archote, que cauteriza as feridas, a fim de que, uma vez cortadas, as cabeças não mais possam renascer. O archote simboliza a purificação sublime.

HydraZurbaran

O leão da Neméia

Herakles_und_LoeweNo Peloponeso, estrangulou o Leão de Neméia – filho dos monstros Ortro e Equidna – que devastava a região e cujos habitantes não conseguiam matar.

Era um monstro de pele invulnerável, que possuía irmãos célebres e terríveis: Cérbero, Hidra de Lerna, Quimera, Esfinge de Tebas. 

Criado pela deusa Hera ou à mesma emprestado pela deusa-lua “Selene”, para provar Hércules, o monstro passava parte do dia escondido num bosque. Quando deixava o esconderijo, o fazia para devastar toda a região, devorando-lhe os habitantes e os rebanhos. Entocado numa caverna, com duas saídas, era quase impossível aproximar-se dele.

O herói atacou-o a flechadas, mas em vão, pois o couro do leão era invulnerável.

Astutamente, fechando uma das saídas, o filho de Zeus o tontetou a golpes de clava e agarrando-o com seus braços possantes, o sufocou.

Acabada a luta, arranca a pele do animal com as suas próprias garras e ao cobrir os ombros com ela, passou a utilizá-la como vestuário.  Da cabeça do mesmo fez um capacete.  A pele, além da invulnerabilidade, possuía uma energia muito forte, simbolizando a combatividade vitoriosa do filho de Alcmena.

Diz-se que esta criatura se converteu na constelação de Leão.

Hercules_killing_the_Nemean_Lion