Os pomos do Jardim das Hespérides

as 3 Hespérides

as 3 Hespérides

Quando do casamento sagrado de Zeus e Hera, esta recebeu de Gaia, como presente de núpcias, algumas maçãs de ouro.  A esposa de Zeus as achou tão belas, que as fez plantar em seu jardim.

Como as filhas de Atlas, que ali perto sustentava em seus ombros a abóbada celeste, costumavam pilhar o jardim, a deusa colocou os pomos e a árvore em que estavam engastados, sob severa vigilância.

Um dragão imortal, de cem cabeças, filho de Tifão e Équidna, e as três ninfas do Poente, as Hespérides: Egle, Eritia e Hesperaretusa, isto é, a brilhante, a vermelha e a do poente, exatamente o que acontece com as três colorações do céu, quando o sol vai desaparecendo no Ocidente, guardavam, dia e noite, a árvore e seus pomos de ouro.

A derradeira tarefa do herói incansável consistia, exatamente, em trazê-los a Euristeu.

Atravessando a Macedônia, Hércules foi desafiado por Cicno, filho de Ares, que violento e sanguinário, assaltava os peregrinos que se dirigiam ao Oráculo de Delfos. Após assassiná-los, oferecia-lhes os despojos a seu pai. Em rápido combate, o herói o matou, mas teve que defrontar-se com o próprio deus, que pretendia vigar o filho. Atena desviou-lhe o dardo mortal, e o herói, então, o feriu na coxa, obrigando Ares a fugir para o Olimpo.

Depois encontrou as ninfas dos rios, filhas de Zeus e Têmis, que viviam numa gruta. Interrogadas por Héracles, elas lhe revelaram que somente Nereu era capaz de informar com precisão como chegar ao Jardim das Hespérides. Nereu, para não indicar o itinerário, transformou-se de todas as maneiras, mas o filho de Zeus o segurou com tanta força, que o deus das metamorfoses acabou por revelar a localização.

Hércules e Anteu

Hércules e Anteu

AnteuDas ondas do mar, residência de Nereu, o herói chegou à Libia, onde lutou com o gigante Anteu, que de uma força prodigiosa, obrigava a todos os que passavam pelo deserto, a lutarem com ele e, invariavelmente, os vencia e matava. Hércules, percebendo que seu competidor, quando estava prestes a ser vencido, apoiava firmemente os pés na Terra, sua mãe, Gaia, e dela recebia energias redobradas, deteve-o no ar e o sufocou. Tomou por esposa, em seguida, a mulher da vítima, Ifínoe, e deu-lhe um filho.

Para vingar seu amigo Anteu, os pigmeus, que habitavam os confins da Líbia e não tinham mais que um palmo de altura, tentaram matar Hércules, enquanto este dormia. O herói, tendo acordado, pôs-se a rir. Pegou os inimigos com uma só mão e os levou para Euristeu.

Atravessando o Egito, pelas más colheitas consecutivas, um adivinho de Chipre, Frásio, aconselhou o rei a sacrificar anualmente um estrangeiro a Zeus, para apaziguar-lhe a cólera e fazer que retornasse a prosperidade ao país. A primeira vítima foi exatamente Frásio. Hércules, logo que lá chegou, o rei o prendeu, enfaixou-o, o coroou de flores (como se fazia com as vítimas) e o levou para o altar dos sacrifícios. O herói, todavia, desfez os laços, matou o rei, e a todos os seus assistentes e sacerdotes.

Do Egito passou à Ásia e na travessia da Arábia, viu-se forçado a lutar com Emátion, que quis barrar-lhe o caminho que levava ao Jardim das Hespérides, porque não desejava que Hércules colhesse os Pomos de Ouro. Após matá-lo, o herói entregou o reino a Mêmnon e atravessou, em seguida, a Líbia, chegando à margem oposta, junto ao Cáucaso. Escalando-o, libertou Prometeu. Como sinal de gratidão, Prometeu aconselhou-o a não colher ele próprio as maçãs, mas que o fizesse por intermédio de Atlas.

Jardim das Hespérides - decoração de cerâmica

Jardim das Hespérides - decoração de cerâmica

Atlas com o mundo nas costas

Atlas com o mundo nas costas

Continuando o roteiro, Hércules chegou ao extremo ocidente e, de imediato, procurou Atlas, que segurava a abóbada celeste sobre os ombros. Hércules ofereceu-se para sustentar o Céu, enquanto aquele fosse buscar as maçãs.

O gigante concordou prazerosamente, mas, ao retornar, disse ao filho de Zeus que iria pessoalmente, levar os frutos preciosos a Euristeu. Hércules fingiu concordar e pediu-lhe apenas que o substituísse por um momento, para que pudesse colocar uma almofada sobre os ombros. Atlas nem sequer desconfiou. O herói então, tranquilamente, pegou as maçãs de ouro e retornou a Micenas.

De posse das maçãs, Euristeu ficou sem saber o que fazer com elas e as devolveu a Hércules.

Este as deu de presente a Atena, que repôs os pomos no Jardim das Hespérides, porque a lei divina proibia que esses frutos permanecessem em outro lugar.

Fechara-se o ciclo.  A Gnose (o conhecimento) estava adquirida.

Hércules no Jardim das Hespérides

Hércules no Jardim das Hespérides

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Cérbero

cerberusO trabalho imposto por Euristeu, foi a ida ao mundo dos mortos, para de lá trazer Cérbero, cão de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes, guardião inexorável do reino de Hades. Impedia que lá penetrassem os vivos e, quando isto acontecia, não lhes permitia a saída, a não ser com ordem expressa de Hades.

Jamais Hércules teria podido realizar semelhante proeza, se não tivesse contado, por ordem de Zeus, com o auxílio de Hermes e Atena, quer dizer, com o concurso do quem não erra o caminho e da que ilumina as trevas.

Pessoalmente, o herói se preparou, fazendo-se iniciar nos Mistérios de Elêusis, que, entre outras coisas, ensinavam como se chegar com segurança à outra vida.

Segundo a tradição, o herói desceu pelo cabo Tênaro, na Lacônia, uma das entradas clássicas que dava acesso direto ao mundo dos mortos.

Vendo-o chegar ao Hades, os mortos fugiram espavoridos, permanecendo onde estavam, apenas, Medusa e Meléagro.

Contra a primeira o herói puxou a espada, mas Hermes o advertiu de que se tratava apenas de uma sombra vã. 

Contra o segundo, Hércules retesou o arco, mas o desventurado Meléagro contou-lhe de maneira tão comovente seus derradeiros momentos na terra, que o filho de Alcmena se emocionou até as lágrimas: poupou-lhe e ainda prometeu que, no retorno, lhe desposaria a irmã Dejanira.

Héracles não foi só o maior dos heróis, mas igualmente o mais humano de todos eles.  Mais uma vez o encontramos penalizado com a sorte alheia: vendo que no Hades os mortos eram apenas fantasmas, resolveu reanimá-los, mesmo que fosse por alguns instantes.  Para tanto, tendo que fazer libações sangrentas aos mortos, imaginou sacrificar algumas reses do rebanho de Hades.  Como o pastor Manetes quisesse impedi-lo até mesmo de se aproximar dos animais, o herói o apertou em seus braços possantes, quebrando-lhes várias costelas.

Finalmente Héracles chegou diante de Hades e, sem mais, pediu-lhe para levar Cérbero para Micenas.

Hades concordou, desde que o herói não usasse contra o monstro, de suas armas convencionais, mas o capturasse sem feri-lo, revestido apenas de sua couraça e da pele do Leão de Neméia.

hercules02heracles07Hércules agarrou-se com Cérbero e, quase sufocado, o guardião do reino dos mortos perdeu as forças e aquietou-se.

Subindo com sua presa, dirigiu-se para Micenas.  Vendo Cérbero, Euristeu refugiou-se em uma talha de bronze.  Não sabendo o que fazer com o monstro infernal, Hércules o levou de volta a Hades.

A respeito da descida de Hércules ao Hades, sabe-se que esta configura o supremo rito iniciático: a morte simbólica, a condição indispensável para uma subida, uma escalada definitiva na busca do autoconhecimento, da transformação do que resta ao homem velho no homem novo.

A viagem subterrânea, durante a qual os encontros com os monstros míticos configuram as provações de um processo iniciático, era, na realidade, um reconhecimento de si mesmo, uma rejeição dos resíduos psíquicos inibidores, consoante a inscrição gravada no pórtico do templo de Delfos: Conhece-te a ti mesmo.

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O cinturão de Hipólita

Hipólita - a rainha das Amazonas

Hipólita - a rainha das Amazonas

Foi a pedido de Admeta, filha de Euristeu e sacerdotisa de Hera, que Hércules, acompanhado por alguns voluntários, inclusive Teseu, seguiu para o fabuloso país das Amazonas, a fim de trazer para Admeta o famoso cinturão mágico de Hipólita, rainha dessas guerreiras indomáveis.

Tal Cinturão havia sido dado a Hipólita pelo deus Ares, como símbolo do poder temporal que a Amazona exercia sobre seu povo.

Tendo sido feita prisioneira uma irmã de Hipólita, Melanipe, a rainha amazona concluiu tréguas com o filho de Alcmena e concordou em entregar-lhe o Cinturão, em troca da sua liberdade.

Hipólita concordou em entregar-lhe o Cinturão, mas Hera, disfarçada numa Amazona, suscitou grave querela entre os companheiros do herói.

Pensando ter sido traído pela rainha, Hércules a matou.

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Os cavalos de Diomedes

Diomedes filho de Ares e Pirene, o cruel rei da Trácia, possuía quatro éguas, Podargo, Lâmpon, Xanto e Dino, que vomitavam fumo e fogo e que eram alimentadas com as carnes dos estrangeiros que as tempestades lançavam às costas da Trácia.

Euristeu ordenou a Hércules de pôr termo a essa prática selvagem e trazer as éguas para Argos.

O herói foi obrigado a lutar com Diomedes, que, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas.

Após devorarem o rei, as éguas, estranhamente, se acalmaram e foram, sem dificuldade alguma, conduzidas a Micenas.

Euristeu as deixou em liberdade e as mesmas acabaram sendo devoradas pelas feras do monte Olimpo.

Do ponto de vista simbólico, sendo as éguas antropófagas, configuram a perversidade que devora o homem: a banalização, causa da morte da alma.

Diomedes, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas

Diomedes, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas

O touro de Minos

GeorgeF.Watts-MinotaurosMinos, rei de Creta, prometera sacrificar a Poseidom, tudo quanto de especial saísse do mar.

O deus fez surgir das espumas um touro maravilhoso.

Encantado com a beleza do animal, o rei mandou levá-lo para junto de seu rebanho e sacrificou a Poseidom um outro.

Irritado, o deus enfureceu o touro, que saiu pela ilha, fazendo terríveis devastações.

Foi este animal feroz, que lançava chamas pelas narinas, que Euristeu ordenou a Hércules de trazer vivo para Micenas.

Não podendo contar com o auxílio de Minos, que se recusou a ajudá-lo, o herói, segurando o monstro pelos chifres, conseguiu dominá-lo e, sobre o dorso do mesmo, regressou à Hélade.

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Euristeu o ofertou à deusa Hera, mas esta, nada querendo que proviesse de Hércules, o soltou.

O animal percorreu a Argólida, atravessou o Istmo de Corinto e ganhou a Ática, refugiando-se em Maratona, onde Teseu, mais tarde, o capturou e sacrificou a Apolo.

A corça com chifres e pés de bronze

Ártemis e a corça de pés de bronze

Ártemis e a corça de pés de bronze

Essa corça, era uma das cinco que Artemis encontrou no monte Liceu.  Quatro a deusa atrelou em seu carro e a quinta, a poderosa Hera conduziu para o monte Cerinia, com o fito de servir a seus intentos contra Hércules.

Consagrada à irmã gêmea de Apolo, esse animal, cujos pés eram de bronze e os cornos de ouro, trazia a marca do sagrado e, portanto, não podia ser morta.  Mais pesada que um touro, se bem que rapidíssima, o herói, que deveria trazê-la viva a Euristeu, perseguiu-a durante um ano.

Já exausto, o animal buscou refúgio no monte Artemísion, mas, sem lhe dar tréguas, Hércules continuou na caçada.

Hércules seguiu a corça em direção ao norte, através da Ístria, chegando ao país dos Hiperbóreos, onde, na Ilha dos Bem-Aventurados, foi acolhido por Artemis.

A interpretação é uma antecipação da única tarefa realmente importante do herói, sua liberação interior. Sua estupenda vitória, após um ano de tenaz perseguição, apossando-se da corça de cornos de ouro e pés de bronze, tendo chegado ao norte e ao céu eternamente azul dos Hiperbóreos, configura a busca da sabedoria, tão dificil de se conseguir.

O simbolismo dos pés de bronze há que ser interpretado a partir do próprio metal. Enquanto sagrado, o bronze isola o animal do mundo profano, mas, enquanto pesado, o escraviza à terra.

Têm-se aí os dois aspectos fundamentais da interpretação: o diurno e o noturno dessa corça. Seu lado puro e virginal é bem acentuado, mas o peso do metal poderá pervertê-la, fazendo-a apegar-se a desejos grosseiros, que lhe impedem qualquer vôo mais alto.

A corça, como o cordeiro, simboliza uma qualidade do espírito, que se contrapõe à agressividade dominadora. Os pés de bronze, quando aplicados à sublimidade, configuram a força da alma.

A imagem traduz a paciência e o esforço na consecução da delicadeza e da sensibilidade sublime, especificando, igualmente, que essa mesma sensibilidade representada pela corça, embora se oponha à violência, possui um vigor capaz de preservá-la de toda e qualquer fraqueza espiritual.

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Os 12 trabalhos de Hércules

Após recuperar a sanidade, Hércules foi a Delfos consultar o oráculo de Apolo sobre o meio de se redimir desse crime e poder continuar com uma vida normal.

O oráculo ordenou-lhe que servisse, durante doze anos, o seu primo Euristeu, rei lendário de Micenas e de Tirinto.

Apresentando-se ao serviço, o rei, simpático a Juno (Hera), que não cessava de perseguir os filhos adulterinos de Júpiter (Zeus), impôs-lhe, com a oculta intenção de eliminá-lo, doze perigosíssimos trabalhos, das quais o herói saiu vitorioso.

Qualquer que seja a versão sobre a origem dos trabalhos de Hércules, sua razão básica está no conceito da necessidade de submeter-se ao rei Euristeu, que impõe as 12 tarefas, durante 12 anos, para ele alcançar a perfeição e a imortalidade. 

Os trabalhos de Hércules, no pensamento grego, é a constante reflexão segundo a qual todo herói deve purificar-se no sofrimento, até que sua alma se liberte de todas as paixões.  Simbolizam, fundamentalmente, o surgimento do mito heróico que todos os povos têm para indicar sua passagem do estado de barbárie para o de civilização. 

O herói afasta e remove os grandes obstáculos – apresentados como monstros – do caminho do progresso.

Durante a execução dos trabalhos, Hércules obteve todas as suas armas.  Ele mesmo confeccionou a maça com um tronco de oliveira, quando caçou o leão da Neméia.   A espada foi lhe dada por Hérmes.   Apolo deu-lhe o arco e as flechas.  Hefestos ofertou-lhe o peplo, túnica sem mangas, presa ao ombro por uma fivela. 

E os cavalos foram presente de Poseidon.  Quase todos os deuses contribuíram para auxiliar Hércules na realização de suas tarefas.