As aves do lago Estínfalo

Hércules e as aves do lago Estínfalo - peça do Louvre

Hércules e as aves do lago Estínfalo - peça do Louvre

Numa espessa e escura floresta, às margens do lago de Estinfalo, na Arcádia, viviam centenas de aves de porte gigantesco, cujas asas, cabeça e bico eram de ferro, que devoravam os frutos da terra, em toda aquela região.

Por seu enorme tamanho, interceptavam, no vôo, os raios do sol.

Eram antropófagas e liquidavam os passantes com suas penas aceradas, de que se serviam como de dardos mortíferos.

A dificuldade consistia em fazê-las sair de seus escuros abrigos na floresta.

Hefesto, a pedido de Atena, fabricou para o herói umas castanholas de bronze.  Com o barulho ensurdecedor desses instrumentos, as aves levantaram vôo e foram mortas com flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna.

Com suas flechas certeiras, símbolo da espiritualização, Hércules liquidou as aves. Como pântano, o lago reflete a estagnação. As aves que dele levantam vôo simbolizam o impulso de desejos múltiplos e perversos. Saídos do inconsciente, onde se haviam estagnado, põem-se a esvoaçar, e sua afetividade perversa acaba por ofuscar o espírito.

A vitória do filho de Alcmena é mais um triunfo sobre as trevas.

Hercules e as aves - Dürer

Hercules e as aves - Dürer

Os currais do rei Augias

curraisLimpou em um dia os currais do rei de Elis, Augias, filho de Poseidom; que continham três mil bois e que há trinta anos não eram limpos.

Estavam tão fedorentos que exalavam um gás mortal.

Para isso, Hércules desviou dois rios.

O javali de Erimanto

heracles08Erimanto é uma escura montanha da Arcádia, onde se escondia um monstruoso javali, que Héracles deveria trazer vivo ao rei de Argos.

Com gritos poderosos, o herói fê-lo sair do covil e, atraindo a besta-fera para uma caverna coberta de neve, o fatigou até que lhe foi possível segurá-lo pelo dorso e conduzi-lo.

Ao ver o monstro, Euristeu, apavorado, escondeu-se num jarro de bronze.

As presas do animal foram mostradas no templo de Apolo em Cumas.

O simbolismo do Javali está diretamente relacionado com a tradição hiperbórea, com aquele nostálgico paraíso perdido, onde se localizaria a Ilha dos Bem-Aventurados. O javali configuraria o poder espiritual, em contraposição ao poder temporal. Assim concebida, a simbólica do javali estaria relacionada com o retiro solitário do druida nas florestas: nutre-se do carvalho, árvore sagrada, e sua fêmea, com seus nove filhotes, escava a terra em torno da macieira, a árvore da imortalidade.

Hercules apoderando-se do símbolo do poder espiritual, escala mais um degrau no rito iniciático.

A corça com chifres e pés de bronze

Ártemis e a corça de pés de bronze

Ártemis e a corça de pés de bronze

Essa corça, era uma das cinco que Artemis encontrou no monte Liceu.  Quatro a deusa atrelou em seu carro e a quinta, a poderosa Hera conduziu para o monte Cerinia, com o fito de servir a seus intentos contra Hércules.

Consagrada à irmã gêmea de Apolo, esse animal, cujos pés eram de bronze e os cornos de ouro, trazia a marca do sagrado e, portanto, não podia ser morta.  Mais pesada que um touro, se bem que rapidíssima, o herói, que deveria trazê-la viva a Euristeu, perseguiu-a durante um ano.

Já exausto, o animal buscou refúgio no monte Artemísion, mas, sem lhe dar tréguas, Hércules continuou na caçada.

Hércules seguiu a corça em direção ao norte, através da Ístria, chegando ao país dos Hiperbóreos, onde, na Ilha dos Bem-Aventurados, foi acolhido por Artemis.

A interpretação é uma antecipação da única tarefa realmente importante do herói, sua liberação interior. Sua estupenda vitória, após um ano de tenaz perseguição, apossando-se da corça de cornos de ouro e pés de bronze, tendo chegado ao norte e ao céu eternamente azul dos Hiperbóreos, configura a busca da sabedoria, tão dificil de se conseguir.

O simbolismo dos pés de bronze há que ser interpretado a partir do próprio metal. Enquanto sagrado, o bronze isola o animal do mundo profano, mas, enquanto pesado, o escraviza à terra.

Têm-se aí os dois aspectos fundamentais da interpretação: o diurno e o noturno dessa corça. Seu lado puro e virginal é bem acentuado, mas o peso do metal poderá pervertê-la, fazendo-a apegar-se a desejos grosseiros, que lhe impedem qualquer vôo mais alto.

A corça, como o cordeiro, simboliza uma qualidade do espírito, que se contrapõe à agressividade dominadora. Os pés de bronze, quando aplicados à sublimidade, configuram a força da alma.

A imagem traduz a paciência e o esforço na consecução da delicadeza e da sensibilidade sublime, especificando, igualmente, que essa mesma sensibilidade representada pela corça, embora se oponha à violência, possui um vigor capaz de preservá-la de toda e qualquer fraqueza espiritual.

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A Hidra de Lerna

hidra1A Hidra de Lerna era uma serpente, com corpo de cachorro, com nove cabeças (uma das quais era parcialmente de ouro e imortal), que se reproduziam mal eram cortadas e exalavam um vapor que eliminava quem se encontrasse nas redondezas: homens, colheitas e rebanhos.

Segundo a tradição, o monstro fora criado num pântano, por Hera para que acabasse com Hércules e este acabou com a hidra cortando-lhe as cabeças enquanto o seu sobrinho Iolau impedia a sua reprodução cauterizando as feridas do animal com tições em brasa, vindos do incêndio que ele havia provocado numa floresta próxima.

Hera enviou ajuda à serpente, um enorme caranguejo, mas Hércules pisou-o e o animal converteu-se na constelação de Caranguejo (ou Câncer).

heracles02A cabeça do meio era imortal, mas o filho de Alcmena a decepou assim mesmo: enterrou-a e colocou-lhe por cima de um enorme rochedo.  Por fim, o herói banhou as suas flechas com o sangue da serpente de maneira a que ficassem envenenadas.

A interpretação do mito é de que se trata de um rito aquático. A hidra com as cabeças, que renasciam, seria, na realidade, o pântano de Lerna, drenado pelo herói. As cabeças seriam as nascentes, que, enquanto não fossem estancadas, tornariam inútil qualquer drenagem.

A venenosa serpente aquática, dotada de muitas cabeças, é frequentemente comparada com os deltas dos rios, com seus inúmeros braços, cheias e baixas.

Vivendo nos pântano, a Hidra é mais especificamente caracterizada como símbolo dos vícios banais, nos quais se prolonga o corpo da perversão, a vaidade. Enquanto o monstro vive, enquanto a vaidade não é dominada, as cabeças, configuração dos vícios, renascem, mesmo que, por uma vitória passageira, se consiga cortar uma ou outra.

O Sangue da Hidra é uma veneno e nele o herói mergulhou suas flechas. Quando a peçonha se mistura às águas dos rios, os peixes não podem ser consumidos, o que confirma a interpretação simbólica: tudo quanto tem contato com os vícios, ou deles procede, se corrompe e corrompe.

Para vencer o monstro, Hércules usa a espada, arma de combate espiritual, conjugada ao archote, que cauteriza as feridas, a fim de que, uma vez cortadas, as cabeças não mais possam renascer. O archote simboliza a purificação sublime.

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O leão da Neméia

Herakles_und_LoeweNo Peloponeso, estrangulou o Leão de Neméia – filho dos monstros Ortro e Equidna – que devastava a região e cujos habitantes não conseguiam matar.

Era um monstro de pele invulnerável, que possuía irmãos célebres e terríveis: Cérbero, Hidra de Lerna, Quimera, Esfinge de Tebas. 

Criado pela deusa Hera ou à mesma emprestado pela deusa-lua “Selene”, para provar Hércules, o monstro passava parte do dia escondido num bosque. Quando deixava o esconderijo, o fazia para devastar toda a região, devorando-lhe os habitantes e os rebanhos. Entocado numa caverna, com duas saídas, era quase impossível aproximar-se dele.

O herói atacou-o a flechadas, mas em vão, pois o couro do leão era invulnerável.

Astutamente, fechando uma das saídas, o filho de Zeus o tontetou a golpes de clava e agarrando-o com seus braços possantes, o sufocou.

Acabada a luta, arranca a pele do animal com as suas próprias garras e ao cobrir os ombros com ela, passou a utilizá-la como vestuário.  Da cabeça do mesmo fez um capacete.  A pele, além da invulnerabilidade, possuía uma energia muito forte, simbolizando a combatividade vitoriosa do filho de Alcmena.

Diz-se que esta criatura se converteu na constelação de Leão.

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Os 12 trabalhos de Hércules

Após recuperar a sanidade, Hércules foi a Delfos consultar o oráculo de Apolo sobre o meio de se redimir desse crime e poder continuar com uma vida normal.

O oráculo ordenou-lhe que servisse, durante doze anos, o seu primo Euristeu, rei lendário de Micenas e de Tirinto.

Apresentando-se ao serviço, o rei, simpático a Juno (Hera), que não cessava de perseguir os filhos adulterinos de Júpiter (Zeus), impôs-lhe, com a oculta intenção de eliminá-lo, doze perigosíssimos trabalhos, das quais o herói saiu vitorioso.

Qualquer que seja a versão sobre a origem dos trabalhos de Hércules, sua razão básica está no conceito da necessidade de submeter-se ao rei Euristeu, que impõe as 12 tarefas, durante 12 anos, para ele alcançar a perfeição e a imortalidade. 

Os trabalhos de Hércules, no pensamento grego, é a constante reflexão segundo a qual todo herói deve purificar-se no sofrimento, até que sua alma se liberte de todas as paixões.  Simbolizam, fundamentalmente, o surgimento do mito heróico que todos os povos têm para indicar sua passagem do estado de barbárie para o de civilização. 

O herói afasta e remove os grandes obstáculos – apresentados como monstros – do caminho do progresso.

Durante a execução dos trabalhos, Hércules obteve todas as suas armas.  Ele mesmo confeccionou a maça com um tronco de oliveira, quando caçou o leão da Neméia.   A espada foi lhe dada por Hérmes.   Apolo deu-lhe o arco e as flechas.  Hefestos ofertou-lhe o peplo, túnica sem mangas, presa ao ombro por uma fivela. 

E os cavalos foram presente de Poseidon.  Quase todos os deuses contribuíram para auxiliar Hércules na realização de suas tarefas.